A Associação Paraguaia de Produtores de Suínos (APPC) formalizou nesta terça-feira (25) uma denúncia criminal contra o contrabando de suínos, carnes e derivados vindos do Brasil. O gremio apresentou o pedido em duas frentes: às 9h na Direção Nacional de Receitas Tributárias (DNIT) e às 10h no Ministério Público.
A entidade solicita à DNIT relatórios detalhados dos últimos seis meses sobre fiscalizações em pontos estratégicos dos departamentos de Alto Paraná, Canindeyú e Amambay, além da preservação urgente das gravações de circuito fechado nesses postos.
"Se existe contrabando, queremos saber quem o introduz, por onde entra e como atravessa os controles", afirmou o gremio em comunicado.
Apreensões no mesmo dia
Ainda na terça-feira, agentes da DNIT e da Polícia interceptaram dois carregamentos irregulares:
Em Ciudad del Este, na Ruta 2, km 7,5, foram apreendidos 40 suínos vivos transportados sem Guia de Trânsito. Dois homens foram detidos. Os animais foram encaminhados para abate sanitário. O prejuízo estimado aos contrabandistas é de G. 600 milhões (cerca de R$ 400 mil).
Em Saltos del Guairá, departamento de Canindeyú, outra carga de suínos foi incautada, também com indícios de origem ilegal.
Queda de preços e custos de produção
O setor suinícola paraguaio enfrenta forte pressão sobre suas margens de lucro. O valor pago ao produtor despencou de cerca de G. 11.500 (R$ 7,67) para menos de G. 8.000 (R$ 5,33) por quilo desde janeiro deste ano, segundo Roberto Bento, vice-presidente da APPC.
O custo para produzir um suíno terminado de forma eficiente varia entre G. 7.500 (R$ 5,00) e G. 8.500 (R$ 5,67) por quilo. "Isso deixa o produtor praticamente sem rentabilidade nenhuma", lamentou Bento. Um animal atinge o peso ideal de abate — entre 110 e 115 quilos — em cerca de seis meses, com custo total de produção girando entre G. 750.000 (R$ 500) e G. 800.000 (R$ 533) por animal.
O principal alvo das reclamações é a carne que cruza a fronteira ilegalmente. A APPC estima que o preço do suíno no Brasil esteja na faixa de G. 5.000 (R$ 3,33) a G. 6.000 (R$ 4,00) o quilo, o que cria forte incentivo para o contrabando.
Risco sanitário e exportações em xeque
Além da concorrência financeira, o perigo biológico é uma preocupação máxima. Animais sem rastreabilidade podem reintroduzir doenças no rebanho nacional. "Sendo de contrabando, essa rastreabilidade já se esfuma a zero", destacou Bento.
Esse risco ganha proporções maiores porque o Paraguai vive um bom momento nas exportações. No primeiro semestre de 2026, o país exportou 8.721 toneladas de carne suína (US$ 25,54 milhões), um crescimento de 11,36% em volume. Em julho deste ano, o país inclusive concretizou seu primeiro envio de 27 toneladas para as Filipinas.
O que está em jogo
Para a APPC, o contrabando porcino golpeia três frentes: a produção nacional, a arrecadação tributária do Estado e o estatus sanitário do país, chave para sustentar as exportações. O setor pede intervenção dos órgãos de defesa do consumidor e mais rigor nas fiscalizações da fronteira, reforçando o uso de tecnologias de inspeção. Os pequenos produtores — que enfrentam barreiras logísticas para vender diretamente aos supermercados — são os mais ameaçados.
Nota: O valor de referência cambial utilizado é de G. 1.500 para cada R$ 1,00.